Há coincidências incríveis. Quando, há uns anos, João Tomás fez um percurso pedestre entre a Guarda e Unhais da Serra, estava longe de imaginar que a pequena casa onde tinha pernoitado seria mais tarde o grande projecto da sua vida. «Lembro-me dessa noite, recordo todos os pormenores, o cheiro do jantar, o calor da casa. E hoje, uma década depois, estamos aqui a conversar, no mesmo sítio, mas com uma transformação enorme», começa por dizer João, assim que nos abre as portas da Casa das Penhas Douradas, um hotel de charme que começou por funcionar com nove quartos, mas que há duas semanas abriu o novo bloco, com mais nove. A carreira ligada à advocacia e ao ensino superior ficou para trás. «Sempre imaginei que aos 50 anos a minha vida seria diferente. Eu e a Isabel [esposa] há muito que pensávamos num espaço na Serra, uma casa de férias, mas tivemos medo dos assaltos. Para além disso percebemos que havia programas comunitários de apoio ao turismo. Quando encontrámos um anúncio no jornal com esta casa à venda, decidimos avançar para um projecto turístico de alta qualidade», conta João Tomás. A compra do espaço foi em 2001, seguiram-se dois anos de estudos, projectos, candidaturas. Entre 2004 e 2006 foram feitas as obras da primeira fase: recuperação do edifício antigo, que era chamado de Caverna do Viriato. Os nove quartos, equipados com o melhor mobiliário e decorados com grande requinte, fizeram a delícia dos visitantes, bem como a sauna e a piscina interior aquecida, que permite estar dentro de água e observar o intenso nevão no exterior. Mas o projecto não parou e a segunda fase concluiu-se agora, com a abertura de mais nove quartos e um spa. Todo o interior do empreendimento está forrado com madeira de bétula, espécie que se encontra na Serra da Estrela, mas que ninguém aproveita. «Aqui essas árvores estão em zonas de difícil acesso. Por isso a bétula que aplicámos aqui veio dos países nórdicos, onde há uma indústria especializada. Também algum do mobiliário decorativo é do norte da Europa», revela o proprietário, acrescentando, no entanto, que a restante decoração é artesanal, feita com produtos da região, com destaque para o burel, tecido típico da Serra da Estrela, que nesta unidade está presente em mantas e tapeçaria. Com 11 funcionários, o hotel orgulha-se de prestar um serviço de altíssima qualidade, com grande conforto, tranquilidade, restaurante gourmet, actividades ao ar livre... Os preços rondam os 150 euros por noite (quarto duplo). Os visitantes gostam e voltam. No Inverno os clientes são na maioria portugueses. No Verão, os estrangeiros (sobretudo ingleses) significam grande percentagem da facturação. «Muita gente vem sem carro. Chegam de comboio e nós vamos buscá-los à Covilhã ou à Guarda. Hoje por exemplo chega um casal à 1 da manhã. Com este nevoeiro tenho de ir a Manteigas buscá-los», afirma João. É esta atitude que distingue a Casa das Penhas Douradas, que já venceu dois prémios: Prémio Turismo de Portugal e Prémio Publituris (Melhor Turismo em Espaço Rural).