PP/PR 05 – COVÃO DO FERRO
Enquadramento Geral - Percurso circular entre Piornos – Torre – Piornos
Acesso rodoviário ao local de partida – Uma vez nas Penhas
da Saúde, dirija-se um pouco a montante ao Centro de Limpeza
de Neve, onde encontrará à esquerda um ramal para o
chamado Parque de Estacionamento dos Piornos.
Extensão aproximada - 12Km
Duração aproximada - 5/6 horas
Grau de Dificuldade - Difícil
Tipo de percurso - Circular com desníveis acentuados
Apoios - Painel informativo no local de partida, e balizamento
com a marcação dos símbolos convencionais dos percursos
pedestres.
Nota prévia - Se ainda não está habituado a caminhar, sugerimos-
lhe que faça com a sua viatura a aproximação aos pontos
de contacto com as vias rodoviárias e poderá escolher pequenos
troços de caminhada que não duram mais de uma hora.
Percurso
Parte da ruína do terminal do teleférico, projecto
abandonado por ser demasiado instável.
No canto NW do parque de estacionamento, encontrará leitor
de paisagem que deverá ler para o reconhecimento da
toponímia do percurso que irá efectuar. Desça por trilho que
encontrar, ou mesmo a corta mato dado que este é rasteiro,
até à EN339. Logo à partida, já na estrada, passará ao lado de
antigas saibreiras que lhe revelam um granito muito alterado
de aspecto arenoso. Na encosta do Alto da Pedrice que lhe fica
a Sul pode vislumbrar outras zonas alteradas que com aquelas
formam um alinhamento coincidente com o Vale do Zêzere
e o da Alforfa, evidenciando uma grande falha geológica. Ela
prolonga-se por cerca de 250 km, desde Puebla de Sanabria
em Espanha, passando por Bragança, Vilariça, Vila Nova de
Foz Côa, Manteigas, Unhais da Serra até à Sertã. Trata-se de
uma falha activa que se encontra monitorizada na rede sismográfica
nacional (IM), existindo um sismógrafo instalado em
Manteigas, sendo frequentes os pequenos sismos sentidos
pelas populações desta região. A sua grande extensão à superfície
corresponde igualmente a uma grande profundidade, que
atinge vários quilómetros, permitindo a circulação profunda das
águas das chuvas. Em profundidade estas águas aquecem e
dissolvem gases e sais minerais originando a ocorrência de
nascentes termais em toda a sua extensão, nomeadamente as
de Manteigas e Unhais da Serra. Estudos recentes (J. Espinha
Marques) indicam estar a zona de recarga da nascente termal
de Manteigas situada na Nave de Sto. António, com um ciclo
hidrogeológico estimado em cerca de 10 000 anos.
Unhais é uma das poucas vilas que usa gado para pastoreio
extensivo. No Inverno e no início da Primavera as vacas ficam
perto da vila. No decorrer da Primavera, os animais sobem para
o vale glaciário de Alforfa em busca de comida nas charnecas
e campos de giestas nas encostas. No entanto elas preferem
as pastagens no fundo dos vales. As encostas são geralmente
queimadas, num costume milenar, para estimular o crescimento
de erva. Este uso da terra é também praticado em todas as
montanhas que fazem também parte da Cordilheira Central. Nas
zonas mais altas do vale, tende a haver uma predominância de
campos de giestas. Devem-se mencionar aqui duas espécies de
giestas, a piorneira-da-estrela (Cytisus oromediterraneus) e a Genista
cinerascens.
No mosaico de pastagens e giestais com piorneiras-da-estrela,
foi descoberta, há uns anos atrás, uma nova espécie de
ave reprodutora: o pisco-de-peito-azul, Luscinia svecica cyanecula.
Este pertence a uma população específica da montanha
Ibérica, um padrão que é muito semelhante ao da lagartixada-
montanha, Lacerta monticola. A ave insectívora encontra
aqui o seu alimento e pode construir o seu ninho no solo, na
densa vegetação, debaixo de um arbusto ou numa parede de
pedra. O sistema de uso da terra através das queimadas e do
pastoreio extensivo com gado de Unhais ajuda a manter o seu
habitat. Pode apanhar, por exemplo, insectos que são atraídos
pelo estrume das vacas.
Junto ao cruzamento da EN339 com a EM – Estrada Municipal,
que lhe aparece à esquerda e que vai para Unhais da Serra
deverá iniciar a subida do Espinhaço de Cão. Quando esta se
tornar mais inclinada, e logo demasiado penosa espreite pelo
flanco esquerdo e encontrará marcado no terreno trilho quase
paralelo à EN339 que o levará quase até perto do Covão do Boi
onde se localiza a Senhora da Boa Estrela.
Aceda à EN para evitar escalada e nela continue até à ponte
que antecede o Covão do Boi. De um lado e outro das guardas
da ponte, encontrará curiosas formas graníticas postas a descoberto pela acção erosiva de escorrência da água, as colunas
ou “queijeiras”.
Prossiga pelo Covão do Boi até ao seu limite e regresse à
EN339 para dela apreciar a magnificência do Cântaro Magro
(ver pág. 63), mas com os cuidados a ter numa reserva com
espécies protegidas.
No período estival, podem observar-se passeriformes de montanha,
raros a nível nacional, nomeadamente o melro-das-rochas,
Monticola saxatilis, cuja canção melodiosa se ouve frequentemente,
o chasco-cinzento, Oenanthe oenanthe, a sombria, Emberiza
hortulana e a petinha-dos-campos, Anthus campestris. Nas
vertentes mais escarpadas é também possível observar espécies
rupícolas com estatuto de conservação e rapinas como o falcãoperegrino,
Falco peregrinus, o corvo, Corvus corax e, ocasionalmente,
a águia de Bonelli, Hieraaetus fasciatus.
Entre o Cântaro Magro e o Gordo, que se lhe segue na subida,
pode espreitar da berma da estrada o Covão Cimeiro. É um
anfiteatro de paredes abruptas, com desníveis que chegam a
atingir cerca de 300 metros. Será o mais espectacular dos circos
glaciários da Serra da Estrela. O circo glaciário é uma forma em
anfiteatro, de vertentes abruptas, onde o gelo e a neve se acumulam
escavando na base uma depressão, por vezes limitado
a jusante por uma saliência rochosa com um estrangulamento
designado por ferrolho glaciário.
As condições nas escarpas são
extremas para as plantas (e para
os humanos também!). Neste percurso
é possível observar espécies
de flora endémicas como a Silene
foetida subsp. foetida e espécies
que a nível nacional apenas se encontram
na Serra da Estrela, caso
da Argençana-dos-pastores, Gentiana lutea. Esta última continua a ser colhida pelos pastores
para combater as altas febres provocadas pela brucelose, apesar
de proibída.
Quando alcançar a Torre e o seu marco geodésico de 1ª ordem,
poderá verificar as características do local, um planalto
com a orientação SW/NE originado pelo levantamento de terrenos
aplanados, que faziam parte do extenso aplanamento
da Superfície Fundamental da Meseta, de onde a serra se
elevou nos últimos 10 Ma. Estes movimentos resultam de deslocações
produzidas ao longo de falhas, por acção de forças
compressivas que acompanham a orogenia alpina.
Neste percurso final, tal como em todo o Planalto Superior,
a cotas acima dos 1600 metros, é provável que encontre a lagartixa-
da-montanha (Lacerta monticola), endemismo Ibérico
que em Portugal apenas ocorre na Estrela.
Vai empreender a descida de regresso pela vertente SW/S,
a de menor declive, por trilho que circulará no sentido contrário
dos ponteiros do relógio o Covão do Ferro. Encontre nas paredes
deste Circo Glaciar, após mais de metade do perímetro
circulado, o troço mais favorável para empreender a descida
para o caminho de acesso ao paredão da barragem hidroeléctrica
deste Covão.
Aí chegado dirija-se ao Covão da Mulher e empreenda a subida
pela EM de Unhais da Serra de acesso à portela que é a
Nave de Sto. António e que separa o Vale do Zêzere do Vale da
Alforfa. A separação entre os dois vales é feita por uma estreita
crista de forma alongada, conhecida na região por Espinhaço
do Cão, constituída por material detrítico que corresponde à
moreia lateral do chamado Glaciar da Alforfa. Os glaciares têm
a capacidade de transportar simultaneamente materiais dos
mais diversos tamanhos, que abandonam quando o gelo funde,
dando origem a depósitos heterométricos, denominados
moreias. Estas são normalmente designadas pela posição que
ocupam em relação ao glaciar: moreia terminal, mediana ou
frontal, lateral e de fundo.
De novo na Nave de Sto. António reconhecerá o caminho
que percorreu no início do percurso, pelo que o deverá fazer
em sentido inverso para alcançar o local de partida.