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Os grandes quadros paisagísticos
A Cordilheira Central que separa as duas Castelas penetra
em Portugal por este território, pela Serra das Mesas (1.256 m)
e a de S. Cornélio ou da Malcata (1.072 m).
Ao seu lado o vulto da Estrela sobe abruptamente (mais de
1.000 m), por gargantas glaciares. A Sul, eleva-se outra montanha
granítica, a Gardunha. Entre elas, jaz a Cova da Beira.
A tectónica gerou, do interior da terra, uma grande falha, profunda
e extensa que, desde Puebla de Sanábria a Bragança e aos
férteis vales da Vilariça e da Veiga de Longroiva, atinge Manteigas
e Unhais da Serra e nelas fez brotar nascentes sulfurosas.
Percurso recomendado
Belmonte (N232) – Valhelhas (N232) – Manteigas (N232) – Vale Glaciar (N338) – Manteigas (N232) – Penhas Douradas (N232) – Covão da Ponte (EM) – Manteigas (N232).
O património de Belmonte
No Alto Côa, os castelos de Alfaiates, Sabugal, Sortelha, Vila
do Touro, Vilar Maior e Belmonte constituíam, na Idade Média,
o sistema defensivo que cobria a muralha natural da Serra da
Estrela e se apoiava no fosso profundo do rio Zêzere. A vila de
Belmonte teve foral em 1199, renovado por D. Manuel em 1510
e está situada no Monte da Esperança (antigos Montes Crestados),
um morro rochoso de várias cristas e vastas panorâmicas
que os geomorfólogos denominam Inselberg, palavra alemã
que significa monte-ilha.
Circuito urbano de Turismo Cultural
Num dos cabeços se ergue o castelo de Belmonte, uma construção
militar dos século XII/XIII. Hoje possui um anfiteatro ao
ar livre, o posto de turismo e uma loja do IGESPAR. Enquadra
a igreja de S. Tiago, templo românico do século XII, que recebeu
no século XV o Panteão dos Cabrais, restaurado no século
XVII, onde hoje estão depositadas as cinzas de Pedro Álvares
Cabral, o descobridor do Brasil. No interior, belíssimos frescos
quinhentistas e seiscentistas enriquecem o seu património
único. Localiza-se junto ao castelo e é o segundo dos pólos do
Circuito de Turismo Cultural que possui um bilhete comum aos
diversos museus e monumentos e pode beneficiar de guias
especializados ao longo de todo o percurso. No mesmo largo,
onde se celebra ainda a tradição da fogueira de Natal, encontra-
se a capela de Sto. António, século XV, e a do Calvário século
XIX. Logo abaixo fica o largo com o pelourinho medieval, por
onde se ascende ao magnífico Museu Judaico. Continuamos a
descer em direcção ao vale de onde se avistam os contrafortes
da Estrela e a vastidão da planície da Cova da Beira, para encontrar
o Solar dos Cabrais, construído no século XVIII e que
irá receber o novo espaço museológico, DMN – À Descoberta do
Novo Mundo, Centro Interpretativo dos Descobrimentos. No edifício
que foi a Tulha dos Cabrais, também do século XVIII, destinado
ao armazenamento das rendas da família, está instalado
o Ecomuseu do Zêzere, com diversos módulos que seguem
o percurso do rio. Segue-se o Lagar do Azeite, musealizado,
com loja de produtos regionais. É altura de subir de novo para
visitar na igreja matriz, construção contemporânea dos anos
40, a imagem de Nª Srª da Esperança que a tradição afirma ter
acompanhado a viagem de Cabral ao Brasil e data do século
XIV. De volta ao castelo, caminha-se para as ruas estreitas do
bairro judeu, para visitar a nova Sinagoga de Belmonte, inaugurada
em 1997. A comunidade judaica remonta ao século XIII,
vivendo na época numa judiaria localizada no actual bairro de
Marrocos, de cujo antigo templo resta uma inscrição de 1296.
Num outro cabeço foi construído o Convento da Esperança, hoje
reabilitado como Pousada, num trabalho notável de renovação
arquitectónica e enquadramento paisagístico, permitindo lançar
múltiplas panorâmicas para a Cova da Beira e o Vale do
Zêzere, enquadrados pelos cumes e contrafortes da Serra da
Estrela.
O Circuito de Turismo de Natureza e em Espaço Rural
Oferece este Circuito os grandes quadros paisagísticos da
Bacia do Zêzere, o património romano da Torre de Centum
Cellas, igrejas e ermidas, vales pastoris, pontes, solares e minas
antigas. Concluído o passeio pedonal ao longo do centro
histórico da vila de Belmonte, a visita ao Ecomuseu do Zêzere
prepara a descoberta da paisagem.
Saindo de Belmonte pela EN345, em direcção à Guarda,
desça até ao cruzamento com a EN18, local chamado de Ginjal
e vire à direita para Norte, seguindo a estrada ao longo da Ribeira
de Gaia, afluente do Zêzere.
Cerca de 1 km adiante, vire à direita para Colmeal da Torre,
onde à entrada da povoação se situa a estação arqueológica
romana de Centum Cellas, antiga villa romana do século I d.C.,
ligada à exploração agrícola e mineira da região, de arquitectura
invulgar, relembrando as construções maias e aztecas de
outro continente, que recebia os antigos viajantes no percurso
de Mérida para a Estrela. Do Colmeal siga pelo ramal que indica
a A23 em direcção a Maçaínhas, onde avulta a igreja matriz
e a capela do Espírito Santo, com os seus frescos, através de
uma paisagem agricultada em mosaico. De Maçaínhas tome a
direcção das Olas, antiga aldeia medieval. A partir da Quinta
Cimeira acompanhe o belíssimo e luminoso Vale da Ribeira das
Olas pela estrada municipal, atravessando lameiros e pequenos
bosquetes de amieiros, freixos e carvalhos, onde cantam
toda a espécie de pássaros, rebanhos silenciosos, antigos
casais e cerros graníticos, dos quais se destaca a Penha da
Águia, no sopé da linha do caminho de ferro. Das Olas, a estrada
vira à esquerda para Bendada ao encontro da ermida de
Nª Srª da Estrela, em cujas imediações já foram identificadas
importantes vestígios de estações arqueológicas romanas. De
Bendada chega-se rapidamente à aldeia histórica de Sortelha,
já integrada na grande Rota do Vale do Côa e Além Douro e
no Circuito de Sabugal-Castelo Bom-Almeida. De volta a Belmonte,
pela EN 18-3, as encostas azuladas da Estrela e o verde
da Cova da Beira enquadram o caminho para Caria. No cimo da
vila situa-se a Casa da Torre, antiga residência de Verão dos
Bispos da Guarda (1322). Logo ao lado visite a Casa da Roda,
a igreja matriz da Imaculada Conceição, barroca, dos inícios do
século XVIII, com um notável altar e trono de talha dourada,
finamente elaborada, e tecto de caixotões com trinta e dois retábulos
pintados. De regresso a Belmonte tomamos a direcção
de Valhelas e Manteigas, em direcção ao monumental vale glaciário
do Zêzere e às suas paisagens de montanha.
O património de Valhelhas e o Vale do Zêzere
Seguindo a estrada N232 a partir do Ginjal, ladeada de plátanos,
freixos e choupos-negros, atravessamos os pomares e
as lameiras da fértil várzea do Zêzere até Vale Formoso e Aldeia
do Souto e à capela dedicada à Srª da Saúde, miradouro
natural sobre a Cova da Beira e o casario de Belmonte. Regressando
à EN232 e continuando Vale do Zêzere acima ao encontro da ponte filipina (km 80), um pouco abaixo da confluência
do Zêzere com a Ribeira de Famalicão, alcança-se Valhelhas.
Merece uma paragem para admirar o pelourinho, quinhentista,
o chafariz velho e a sua igreja, que remonta ao século XII (inscrição
na porta N) e foi reconstruída no século XVII, onde se encontra
uma ara romana servindo de floreira junto ao altar, com
vestígios ainda dos seus frescos. Não se deve também perder
a oportunidade de visitar os jardins hortícolas e o parque de
campismo. Logo após Vale de Amoreira, com o seu açude ensombrado
e cristalino, a ponte sobre o Zêzere conduz a Verdelhos
e ao Vale de Beijames, com ligação ao Teixoso e Covilhã.
Continuando para Manteigas, ainda antes de Sameiro, avistará
na encosta pendente do cabeço da Azinheira (topónimo
com origem no tipo de vegetação deste vale já com alguma influência
mediterrânea), a Pista de Esqui Sintética da Relva da
Reboleira topónimo de aprazível local à beira-rio, onde se instalou
um parque de recreio e lazer com campismo, praia fluvial
e parque aventura, além da referida pista. Logo após o que
reconhecerá como ex-instalações fabris, pela presença destacada
de uma velha chaminé, encontrará após o km 65,4 um tão
raro quanto cuidado entroncamento, daqueles que é preciso
cortar à direita para virar à esquerda. Efectue tal manobra e um
pouco à frente atravesse o Zêzere na ponte dos Frades, para a
estrada na margem direita que o leva às Caldas de Manteigas,
e obter uma singular panorâmica da vila que se ergue encosta
acima na margem esquerda.
O Património de Manteigas
Manteigas teve o seu primeiro foral em 1188, atribuído por
D. Sancho I. Merecem visita as igrejas de Santa Maria, São Pedro
e da Misericórdia, o solar da Casa das Obras hoje aproveitado
para turismo de habitação.
A povoação aninha-se na montanha (700 m), com o casario
branco sabiamente construído em terraços que seguem as
curvas de nível, voltada para o vale glaciar do rio Zêzere.
Águas cristalinas e bravas permitiram a instalação de um viveiro
de trutas, hoje renovado, dispondo de um centro de interpretação,
parque de merendas e um posto de venda ao público
das trutas produzidas na truticultura localizada a montante. Na
margem direita existe a antiquíssima Fonte Santa, de água quente
sulfurosa brotando à superfície, reveladora de existência no local
de águas termais que permitiram a instalação de um Balneário,
para onde foi canalizada a sua água e um Hotel Termal mais abaixo
nas Caldas de Manteigas. No local encontra-se intalado num
Canil que protege em especial a variedade de pelo curto do cão
da Serra da Estrela.
As Caldas de Manteigas
Estância hidro-terápica de águas sulfuro-sódicas, indicadas
para os reumatismos, dermatoses e vias respiratórias.
O rio corre rápido e cristalino num anfiteatro natural, sobre um
leito de granito, rodeado de lameiros, onde nasce o milho, cresce
o pasto e se alimentam os rebanhos de ovelhas bordaleiras. No
Verão, o verde das lameiras cobre-se de pequenas orquídeas selvagens
de grande beleza como a Dactylorhiza caramulensis.
O vale glaciário do Zêzere e o Covão da Ametade
A partir da Casa da Roda (cujo nome deriva de uma enorme
roda hidráulica de madeira ainda instalada que “tocava” toda uma
instalação fabril), junto à ponte das Caldas sobre o Zêzere, a estrada
N338 sobe pelo vale glaciário do Zêzere e permite, com
algumas paragens, interpretar e compreender toda a beleza
e complexidade da geomorfologia glaciária: vales suspensos,
moreias e covões enquadram o panorama. Nos lameiros do fundo
do vale passam rebanhos e pastores bíblicos e são visíveis
as “cortes” ainda cobertas de colmo e piorno que os abrigam.
A Fonte Paulo Luís Martins revela-nos um mundo desconhecido
de plantas aquáticas e minúsculos seres vivos. Logo depois,
numa curva à esquerda, surge um pequeno bosquete de vidoeiros
(bétulas), de um lado e outro da linha de água, graças
aos quais foram preservados do trágico incêndio de 2005, um
conjunto notável de teixos, Taxus baccata, alguns centenários.
A chegada ao Covão da Ametade é o encontro com um pequeno
paraíso terrestre: o enquadramento é monumental, sobre o
covão glaciário erguem-se os Cântaros Gordo, Magro e Raso;
entre um bosque denso de vidoeiros/bétulas correm os regatos
que vão gerar o rio. Cobrindo os rochedos um musgo cor de
púrpura (Bryum alpinum) anunciam os jardins miniatura, onde a
micro-fauna e micro-flora da Serra revela a sua formidável biodiversidade,
com as coroas amarelas dos narcisos, com muitas
plantinhas endémicas raras e um manto alourado de Holcus
gayanus, que parece uma pequena erva molar. O chão é macio
e fresco, coberto de cervunais. O sítio funciona como um local
de apoio ao campismo de curta duração.
Mais acima fica-nos a Nave de Santo António, mas o nosso
Circuito pára, por agora, nos miradouros sobre o Vale do Zêzere,
criado pela língua glaciária da glaciação urmiana, com um perfil
em “U” perfeito que pode ser melhor observado através de um
curioso exercício: volte costas ao vale e espreite por debaixo do
arco das suas próprias pernas!
O Poço do Inferno
Regresse agora descendo o vale pela mesma estrada EN
338 e tome pouco antes do viveiro das trutas a estrada florestal
para o Poço do Inferno, atravessando a encosta da Mata
dos Carvalhais. A queda de água do Poço do Inferno na Ribeira
de Leandres, permite-nos reconhecer a zona de contacto entre
o granito e o xisto. Uma rocha negra, a corneana, revela-nos a
extraordinária metamorfose do xisto sob o calor abrasador do
magma que transformou os próprios cristais da rocha inicial.
A água é verde-esmeralda e a diversidade atinge o esplendor
ao longo de todo o percurso. Nas encostas do Vale do Zêzere,
de S. Lourenço e Souto do Concelho, bem visíveis a partir dos
miradouros, como o de Carvalhais, observam-se as cascalheiras
de crioclastia (rochas desagregadas pelo gelo) de rochas
corneanas, manchas de carvalhos e castanheiros renovam a
biodiversidade e enchem de matizes o horizonte: tons suaves
de castanho no Inverno, verde na Primavera, com flores brancas
no verão, castanhos, amarelos e laranjas misturados na
folhagem de Outono, quando os ouriços se abrem. A cerejeirabrava,
de flores rosadas e o esguio Pinheiro-laricio, Larix decidua,
completam o quadro paisagístico.
Penhas Douradas, Vale do Rossim, Covão da Ponte e Vale do Mondego
Regresse a Manteigas e se confiar na sua condução e no seu
sentido de orientação, pode fazê-lo sem ter de regressar pelo
mesmo caminho até às Caldas, seguindo em frente depois do
Poço do Inferno pelo único caminho florestal asfaltado, embora
muito estreito, dos vários que se lhe oferecem. Uma vez
já na vila, aproveite para visitar o património acima descrito
antes de iniciar a subida para as Penhas Douradas. Aconselhase
um atalho pela Rua Dr. Afonso Costa que passa junto ao
campo de futebol, pela estrada florestal de S. Sebastião cuja
capela e parque de merendas anexo irá passar antes de chegar
à EN232, na Curva Bonita que além de o ser tem vista panorâmica
de Manteigas e do vale do Zêzere. Depois da fonte,
na cumeada da encosta da esquerda, situa-se o Observatório
Meteorológico das Penhas Douradas (1882).
Continue pela EN232 até à Pousada de S. Lourenço (1.285 m),
com um notável miradouro e daí para as Penhas Douradas, estância
de férias de montanha agora dotada de novas unidades
de Turismo de Natureza de altíssima qualidade.
À beira da estrada surgem as primeiras caldoneiras, Echinospartum
ibericum subsp. ibericum, espécie protegida e abrigo
faunístico, de arbustos espinhosos com a forma de uma almofada
que lembram um gigantesco ouriço-cacheiro agarrado
aos rochedos boleados.
Casas de grande valor arquitectónico e histórico aproveitam
o encosto das fragas e exibem telhados de grande inclinação e
de cores vivas, foram outrora os primeiros sanatórios, antes da
descoberta dos antibióticos. Aqui a neve é rainha e os animais
selvagens encontram o seu santuário. Chega-se por estrada
asfaltada à Barragem do Vale do Rossim e ao panorama das
Penhas que são Douradas ao sol poente. Junto ao paredão da
barragem existe um restaurante e um recente parque de campismo.
Mais adiante, acessível por percurso pedonal ou de TT,
ficam as pastagens do Vale do Conde e a barragem do Lagoacho.
Lá no alto, avista-se a Torre, a esta distância coroada por
duas cúpulas amarelas que parecem pertencer a uma catedral
do Oriente: no percurso entre as Penhas e a Torre demarcamse
dois mundos da Estrela, limitados pelos fenómenos da periglaciação
e pelo rasto dos glaciares.
Covão da Ponte
Desce-se de novo pela N232 em direcção a Manteigas e ao
km 58 toma-se a EM para o Covão da Ponte. Se dispuser de
viatura todo o terreno pode junto à Pousada de S. Lourenço
atalhar pelo caminho de terra batida que atravessa o Campo
Romão e depois de descer até à Cruz das Jogadas (cruzamento
no velho caminho de Manteigas/Covão da Ponte/Folgosinho)
virar à esquerda e aí já por EM asfaltada descer o Vale Direito
até ao Covão da Ponte.
Caminha-se por entre casais, rebanhos e campos de centeio,
ao encontro do Mondego. Do Covão da Ponte, sobe-se ao longo
das encostas suaves e onduladas de giestais, Cytisus, spp.,
Genista, spp., rosmaninhais, Lavandula spp., urzais, Calluna
vulgaris, Erica, tojais, Ulex, spp., tomilhais, Thymus, spp., até
chegar à capela de Nª Srª do Carmo e aos meandros rápidos
do Vale do Mondego.(ver comentário)
No regresso, volte à Cruz das Jogadas, lugar de encontro
com a paisagem de xisto. Da Cruz das Jogadas pode seguir-se
com viatura TT para a Mata de S. Lourenço e apreciar carvalhos
com cerca de 400 anos e para o vale da Ribeira de Pandil, cascata
de socalcos e lameiros que desce até ao vale do Zêzere
quase até Sameiro. Sem viatura TT não arrisque este troço (não
passa mesmo) e regresse a Manteigas pela EM que o trouxe à
Cruz das Jogadas.
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