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Sempre a subir até ao céu…
A Estrela, a mais grandiosa serra de Portugal continental, é, pelas suas características geográficas, um palco privilegiado para viver experiências únicas. A nobreza das paisagens. Encostas vertiginosas. As lagoas e as pedras esculpidas. Os vales glaciares do Zêzere, de Loriga e de Unhais da Serra. A pureza do ar e o silêncio cristalino. Assim se apresenta a Serra da Estrela. Discreta mas contagiante. Até onde o olhar avista. Não há nada que enganar, é sempre a subir em direcção ao céu...
No Inverno ou no Verão, com ou sem neve, a Estrela é única. Durante todo o ano, a Serra é um autêntico paraíso para os amantes da Natureza ou dos desportos da neve. Ou seja, é o cenário ideal para relaxar. Seja quando fica coberta por um manto branco e convida a trocar os ténis pelos esquis, ou quando a neve derrete e a temperatura convida a praticar outras actividades, desde as mais radicais, como bike park, até às mais relaxantes, com uma componente mais cultural. E se juntar os trilhos dispersos traçados pelo pastoreio e os horizontes moldados pela acção dos glaciares, terá uma encenação deslumbrante que se oferece, pronta a ser descoberta. No interior da Serra encontrará rebanhos isolados e esquecidos. Com sorte até poderá cruzar-se com os protagonistas do filme de Jorge Pelicano: “Ainda há pastores?”. Por isso, deixe-se contagiar pela simplicidade, pureza e simpatia daquelas gentes, e guie-se pelos afloramentos do quartzo branco e rosa no negro do granito, o verde dos zimbrais e cervunais, e ainda, pelo azul das lagoas e das cascatas. A serra da Estrela evidencia-se pela grandiosidade e extensão do seu relevo. O visitante, mesmo sem inclinações para desportos mais radicais, vai acabar por escalar as penhas abruptas que separam as ravinas e cercam, nalguns casos, as lagoas da serra.
Era uma vez…
Esta é a história de um pastor pobre que vivia numa aldeia triste e tinha por única companhia um cão. Este pastor fitava o horizonte e o seu coração enchia-se de esperança de um dia viajar para além das montanhas que envolviam a sua aldeia.
Uma noite de luar em que o pastor olhava o céu estrelado, desceu até ele uma estrela pequenina com um rosto de criança que lhe falou do seu desejo. Estava ali por vontade de Deus, para guiar o pastor para onde este desejasse ir. A partir de então, a estrela nunca mais abandonou o pastor, sorrindo-lhe do céu noite após noite. Até que veio o dia em que o pastor tomou a decisão de partir e chamou a estrela. Os velhos da aldeia abanaram as suas sábias cabeças a tamanha loucura.
O pastor partiu e caminhou durante intermináveis anos. O seu cão não aguentou a dura jornada e ficou pelo caminho, marcado por um sinal de pedra. O pastor chorou e continuou em busca do seu destino, envelhecendo junto com a estrela até que um dia chegaram ao seu destino, à serra mais alta, a que ficava mais perto do céu e ali ficaram juntos. O rei da região mandou-lhe emissários com promessas de poder e fortuna em troca da estrela. O pastor respondeu-lhe que a estrela não era dele mas do céu e que nunca a abandonaria. A lenda diz que ainda hoje da serra da Estrela é possível ver uma estrela que brilha mais do que as outras, de saudade e de amor por um pastor.
Geografia da Serra da Estrela
A Serra da Estrela constitui a principal unidade montanhosa do território português. Fica situada no interior centro do país e atinge o ponto de maior altitude, 1993 metros, entre os vales do Rio Mondego e do Rio Zêzere, no denominado planalto da Torre e Malhão da Estrela. É o ponto mais alto de Portugal continental.
A Serra da Estrela está situada na vertente ocidental da denominada “Meseta Ibérica”, fazendo parte do Sistema Central divisório da Península Ibérica; encontra-se, portanto, no prolongamento das serras espanholas de “Guadarrama”, “Grêdos” e “Gata”.
Dentro de Portugal tem no mesmo prolongamento para o Atlântico, sentido NE-SW, as serras do Açor e da Lousã com vários alinhamentos paralelos importantes.
A História que as pedras encerram
A Região possui, desde logo, factores que a tornam um espaço privilegiado para a prática do turismo na área da Geologia:
- A natureza e atitude do relevo que é belo e sublime, monumental e suave, sem ser monótono ou assustador;
- A natureza e tipo da exposição geológica que são bons, sem darem aspectos agrestes e descarnados ao ambiente;
- A ocupação humana, que é suficientemente esparsa para permitir o intimismo com a natureza e suficientemente densa para evitar o isolacionismo.
- Possui sedimentação recente e sub-recente de natureza continental, fortemente afectada pela tectónica;
- Contém pedreiras actuais e mineralizações que foram importantes para a economia do País num passado não longínquo.
A história natural da região só pode ser estabelecida através do conhecimento da geologia regional. De uma forma simplificada pode contar-se, utilizando alguns blocos-diagrama que dão uma ideia aproximada dos estádios referentes ao início e fim dos principais ciclos geológicos que marcam a paisagem da Serra da Estrela:

Legenda: 600 Milhões de anos. Deposição de sedimentos do complexo Xistograuváquico.

Legenda: 300 milhões de anos. Dobras hercínicas nos metassedimentos.
Instalação dos granitos. Rede de fracturação.

Legenda: 200 milhões de anos. Ciclo de erosão acompanhado da ascensão
dos níveis inferiores, “Up lift” e aplanamento da Meseta.

Legenda: 10 milhões de anos. O rejogo de antigas falhas provoca a
elevação da montanha. Esquema simplificado.

Legenda: 20 mil anos. Glaciação.
Recursos hídricos
Das numerosas fontes existentes na Serra da Estrela partem várias linhas hidrográficas, entre as quais dois dos mais importantes rios nacionais: O Mondego e o Zêzere, que curiosamente nascem na zona mais alta da serra, inflectindo-se depois, obrigados pela espinha dorsal da montanha, o primeiro para norte e o segundo para sul. Os outros cursos fluviais de menor vulto, sendo grande parte deles de carácter estacional, afluem nestes dois rios.
Existem também uma série de lagos e lagoas. Lagoa Redonda, Comprida, Seca, Escura, da Salgadeira, dos Cântaros, do Peixão ou da Paixão, entre outras. Todas estas formações, alimentadas pela chuva e pelo degelo, são resultado de uma glaciação antiga, como o prova a existência de alguns fenómenos, sedimentos quaternários, blocos erráticos e moreias.
O Clima
O clima da Serra da Estrela apresenta as mesmas influências gerais de Portugal continental. Atlântica, mediterrânica e ibérica. Contudo na cumeeira e nas orlas superiores, particularmente, ganha o carácter de “clima de montanha” que no significado técnico deste termo se resume à abundância de ventos, nevoeiros, humidades, frios intensos e grandes oscilações térmicas. Durante a quadra hibernal dá se a precipitação de neve.
A História, nas Terras da Estrela
A Serra da estrela foi chamada, na idade média, Hermeno, ermeo ou ermio. Ora o nome mons Herminius surge em dois autores clássicos que narraram sucessos da campanha de Júlio César em 61-60 AC e de Quinto Cássio Longino em 48 AC. Se é óbvio que o nome medieval deriva do nome antigo mons Herminius, é menos evidente que, na época Romana, o nome Herminius se aplicasse apenas à Serra da Estrela: talvez designasse um conjunto de montanhas que hoje têm cada uma, o seu nome próprio (a da Estrela, a da Gardunha, a da Malcata e talvez ainda a da Marofa e outras mais, mesmo em Espanha).
Seja como for, dificilmente poderemos aceitar que os Lusitanos viviam na serra da Estrela. Sustentada desde o sec. XVI, esta ideia é ainda mais popular, mesmo que historiadores e arqueólogos, hoje, a não subscrevam.
Foi Martins Sarmento o primeiro que duvidou da Serra como solar dos Lusitanos. Em 1881, a Sociedade de Geografia de Lisboa organizou uma «expedição científica» à Serra da Estrela. Esta era então bem conhecida de seus naturais - sobretudo pastores que por ela guiavam seus rebanhos de ovelhas e cabras. Mas o mundo científico não conhecia a serra. Mesmo quem vivia em cidades como Viseu, Guarda ou Castelo Branco, a Serra da Estrela era apenas um horizonte, branco no Inverno, castanho no estio, nevoento ou brumoso em muitos tempos do ano. Só os da Covilhã, industriosos na fiação e tecelagem da lã, a conheciam melhor. A Sociedade de Geografia de Lisboa resolveu, pois, organizar uma expedição para estudar uma serra quase desconhecida ainda na década de 1880. Nessa expedição foram integrados especialistas de Geografia, Geologia, Hidrologia Minero-Medicinal, Agronomia, Zootecnia, Antropologia, Etnografia, etc. Desse grupo fez parte o mais notável arqueólogo de então, Martins Sarmento.
No final da visita, Martins Sarmento escreveu no seu relatório: «as preocupações literárias que faziam crer o mais inacessível dos Hermínios habitado pelos nossos antepassados, os Lusitanos, têm de desvanecer - se perante a realidade dos factos. É possível, é provável, que em ocasiões de grandes perigos, aquele labirinto de precipícios acenasse com um refúgio seguro ás populações dos arredores, que lhe conhecessem os escaminhos; mas este era então um esconderijo, um asilo temporário, que não podia guardar-nos vestígios apreciáveis dos seus fugitivos ocupantes.»
Com efeito, no interior da Serra não há castros: só se encontram nas vertentes voltadas à Beira Central, à Bacia de Celorico (e Fornos de Algodres), à Guarda ou à Cova da Beira - isto é, na periferia da serra. É certo que nas Fragas do Avarento e no Curral dos Martins, bem no coração da Será, foram achados braceletes de ouro da Idade do Ferro (que, infelizmente, levaram sumiço). Em tempos pré-romanos, porém, as jóias eram por vezes oferecidas aos deuses em lugares onde se supunha que estes residiam, longe dos sítios onde os humanos habitavam. Os altos da serra, donde vinham os raios e trovões que por ela abaixo se despenhavam, eram dos deuses.
Ficaram os Lusitanos famosos, na antiguidade, pela valentia com que sustentaram, durante décadas, uma guerra indómita contra os Romanos. Muito se tem escrito sobre as razões da resistência. Pretendem alguns (nisso seguindo os autores gregos e latinos que nos deixaram relatos da história) que os Lusitanos fizeram a guerra porque, vivendo em terras pobres, tinham necessidade de saquear para sobreviver. Mas as terras onde viviam não eram, afinal, tão pobres quanto diziam os historiadores antigos: davam farto pasto às ovelhas, tinham caça, tinham fruta...
Povos antigos não faziam a guerra necessariamente por razões económicas ou para estenderem os seus domínios. Tinham outro pensamento, outros ideais - e entre estes contava-se o da valentia, o da heroicidade.Os Lusitanos já faziam a guerra antes de se terem confrontado com os Romanos. Talvez então não matassem, mas apenas roubasse - e mesmo assim, não por necessidade. Não seria a guerra, para os Lusitanos, um jogo no qual se procurava exercitar ou confirmar a valentia? No bando de fortes gritos com que atacavam aldeias iria o prazer de amedrontar. Tomada a aldeia de assalto, ficariam suspensas as mortes e violências. Com a rendição se satisfariam porque se rende e pede tréguas proclama o poder de quem os vence. No medo que liam nos olhos dos outros entendiam o que, de si mesmo já sabendo, queriam todavia confirmado: a sua valentia. O ser que cada um pretende ser não sendo dado (não se sendo valente como se é loiro ou ruivo), o ser se conquista por actos de bravura praticados. A guerra seria a acção na qual se experimentava a valentia e da qual esta sairia confirmada pelo olhar de medo dos outros e pela piedade que estes pediam.
O mais famoso chefe dos Lusitano foi Viriato. Durante anos sustentou a guerra contra os romanos, com tantos desastres para estes que, em certo momento, acabaram por reconhecê-lo como rex, rei. Mas logo depois, quebrando o tratado, armaram cavilosamente seu assassinato. A resistência quebrada foi fogueira mal extinta, pois haveria de reacender-se em ocasiões, ainda por muitas décadas. Mas era causa perdida. Se, antes dos Romanos, a Serra da Estrela era quase deserta de gente (excepto na sua periferia, como dissemos), continuou a sê-lo por todo o tempo em que os Romanos dominaram a Lusitânia. Mas estes traçaram por ela uma longa rota que ligava Egitânia (Idanha-a-Velha) a Viseu e era o mais curto caminho entre duas das maiores cidades de então: Augusta Eremida (Mérida) e Bracara (Braga). De Centum Celas (Belmonte), a estrada ia a Valhelhas, subia por Famalicão à Senhora das Barrelas e dirigia-se a Videmonte e Folgosinho. Nas imediações desta aldeia conserva-se um belo trecho de via pavimentada, a que a população local chamava de Calçadas dos Galhardos.Nascido na Serra, o Rio Zêzere ia irrigar um vale de clima ameno e terra fértil, que formigava de gente. Na encosta, acima de Orjais, um templo a Júpiter, do qual se conservam ruínas, era um mirante que dominava em redondo vasta terra. Era o mais alto e mais importante monumento romano da serra da Estrela.
Do lado ocidental da serra, voltado à Beira Central, talvez houvesse em Seia povoado romano de alguma dimensão. Mais alto ainda, o castro de S. Romão, que vinha desde os finais da idade do bronze, manteve-se habitado num testemunho de como, por muito que os Romanos tenham proibido ou inovado, não cortaram o fio, sempre contínuo, da história. Trouxeram nova língua, mas não condenaram a antiga lusitana, que continuo ainda por algum tempo a ser falada. Dela temos testemunho em inscrição rupestre do Cabeço das Fráguas. Consagrada a divindades indígenas, esta epígrafe (a par com muitas outras) prova também que os deuses dos antigos Lusitanos não sofreram, dos Romanos, a morte a que só o Cristianismo os condenou.
No sec. VI, eram ainda raras as paróquias. No paroquial dos Suevos, referem-se Subhermeno e Monecipio. Talvez a primeira ficasse em Seia; a segunda, dependente da Sé da Egitânia, havia de situar-se na vertente oriental da Serra - mas a sua localização exacta é desconhecida...
A Biodiversidade
Subir a Estrela é como fazer uma viagem vertiginosa, do Mediterrâneo
ao Polo Norte.
Andar superior ou Alpino -
Situa-se ao nível Biogeográfico no Sector Estrelense, onde predominam herbáceas e arbustos que resistem
ao frio e ao vento aconchegadinhos em almofadas (hábito em
coxim), como o zimbro (Juniperus communis subsp. alpina) e a
caldoneira (Echinospartum ibericum)... Faz-se sentir a influência da última glaciação.
Andar Intermédio -
Situado ao nível Biogeográfico no Superdistrito Altibeirense, que se caracteriza por apresentar uma maior humidade e precipitação (ombroclima sub-húmido) e mais baixa temperatura (supramediterrânico) que as restantes zonas da sua bacia hidrográfica. Esta situação influencia de modo decisivo a existência de bosques de carvalho negral Quercus pyrenaica, verdadeiro símbolo vegetal arbóreo destas paragens, ao qual está associada a presença de tojo gadanho Genista falcata. Estas áreas encontram-se muitas vezes alteradas e degradadas pela acção do Homem, não apenas pelo uso do fogo, mas também pelo pastoreio, cortes, florestações e agricultura, que reduziram os bosques destas folhosas a pequenos bosquetes acantonados em zonas mais inacessíveis e pedregosas, sombrias e mais húmidos. Nas áreas mais degradadas encontram-se formações de giesta branca Cytisus multiflorus e de Rosmaninho Lavandula pedunculata.
Nas áreas de carvalhal, últimos redutos do bosque original, ocorre um conjunto de espécies de animais, que podem ser representadas pela comunidade de rapina florestais com o Falcão abelheiro Pernis apivorus (ave insectívora), Milhafre preto Milvus migrans, Milhafre real Milvus milvus (em grande regressão ao nível europeu), Águia de asa-redonda Buteo buteo e Águia calçada Hieraaetus pennatus. Dos outros grupos de aves características deste habitat destacam-se a Galinhola Scolopax rusticola (ave bastante secretiva), Pombo torcaz Columba palumbus, Noitibó da Europa Caprimulgus europaeus, Pica-pau malhado grande Dendrocopus major, Cotovia pequena Lullula arborea, Rabirruivo de testa branca Phoenicurus phoenicurus, Papa-amoras comum Sylvia communis, Felosa de Bonelli Phylloscopus bonelli.
Nos troço de montanha do Rio Mondego, do Zêzere, do Alva, em que as águas fluem límpidas e sem grande caudal, as galerias ripícolas formam cortinas bem definidas dominadas por Freixo Fraxinus angustifolia, Amieiro Alnus glutinosa e várias espécies de salgueiros Salix sp.. Aí tem presença regular um pequeno conjunto de aves ribeirinhas como a Garça real Ardea cinerea, o Guarda rios Alcedo atthis, a Alvéola cinzenta Motacilla cinerea, a Alvéola branca Motacilla alba, o Melro de água Cinclus cinclus, etc.. Estes cursos de água encontram em excelente estado de conservação, com população da ictiofauna autóctone bem presentes como a Truta-de-rio Salmo trutta, que favorece a existência de lontra Lutra lutra e que constitui um importante recurso piscícola. Estas áreas são também ricas em espécies com afinidades aquáticas das quais se destaca alguns anfíbios e répteis como a Rã-ibérica Rana iberica, o Lagarto-de-água Lacerta scheriberi (Foto 11) e o Cágado Mauremys leprosa e ainda ao nível dos mamíferos a Toupeira-de-água Galemys pyrenaica (espécie prioritária ao nível da conservação).
Andar Basal -
Uma paisagem profundamente humanizada, onde pequenos bosques de carvalho-negral, como os situados a Norte de Linhares e a Nordeste de Prados, coexistem com manchas de carvalho-alvarinho, Quercus robur, antiquíssimos soutos de castanheiros, Castanea sativa e vestígios de azinhais, Quercus rotundifolia, um endemismo ibérico, como na Senhora de Assedasse.
Ao longo dos grandes rios e dos seus afluentes, galerias de Amieiros, Alnus glutinosa e Azereiros, Prunus lisitanica, ensombram as margens.
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