A Importância da Paisagem Humanizada da Serra da Estrela no contexto das Paisagens Culturais Europeias
A paisagem da Estrela foi afectada profundamente pelas actividades humanas. A influência antropogénica começou
há cerca de sete milénios e desde então as florestas originais desapareceram gradualmente. Novos biótopos semi-naturais evoluíram da longa tradição do pastoreio e da agricultura.
Os alimentos produzidos na Estrela cumprem as exigências modernas da alimentação funcional. Estes produtos não contêm praticamente aditivos químicos artificiais. A paisagem de agricultura tradicional pouco intensiva apresenta diversidade elevada da flora e da fauna, especialmente onde uma variedade das colheitas ocorre em campos relativamente pequenos, dentro de uma matriz de vários biótopos, tais como matos, lameiros, prados, rios, canais da irrigação e socalcos. Além da sua importância para determinadas espécies e biótopos, estes mosaicos paisagísticos são valorizados ainda pelas suas qualidades cénicas (estéticas) e significado cultural.
A tradição de pastorícia deu origem a duas raças autóctones de ovelhas, a Mondegueira e a Bordaleira, esta, a melhor para a produção de leite.
A Serra da Estrela, embora seja a maior e a mais alta do continente e tenha permanecido até ao século passado relativamente pouco acessível e envolta em lendas e mistérios, é um território fortemente intervencionado pelo homem desde há milénios.
Na génese das unidades e subunidades de paisagem que a constituem, está, por isso, não só a diferenciação geomorfológica e edafo-climática do território, mas também um intenso processo de humanização com formas diversificadas de sistematização e ordenamento cultural.
A originalidade das soluções de adaptação do “Meio” ao desenvolvimento sustentável da presença humana (em muitos casos extremamente adverso), constitui um património único, de grande interesse turístico, que é urgente divulgar e valorizar, permitindo assim a sua modernização e contrariando o abandono e degradação que ameaça o mundo rural.
Nesta perspectiva considera-se essencial que os Roteiros apresentados identifiquem as Unidades de Paisagem, os seus limites físicos e visuais e explique a diferenciação e originalidade da sua constituição, orientando o visitante na escolha dos percursos e permitindo-lhe a compreensão aprofundada da organização dos espaços.
Concretizando, vale a pena lembrar, por exemplo, as diferenças paisagísticas entre:
- O planalto superior, dominado pelos Cântaros, as fragas, as lagoas e a flora “alpina”, com vistas tão diversificadas quanto profundas e o aproveitamento agro-pecuário dos vales glaciários de cotas inferiores no Rio Zêzere, distinto nos vales das ribeiras de Loriga e na de Unhais;
- As mudanças de sistematização e aproveitamento cultural, introduzidas pela presença do “Complexo Xisto-Grauváquico”, entre Manteigas e Valhelhas, no Vale do Mondego e na meia encosta das ribeiras do Alva;
- A complexidade dos sistemas de rega e de drenagem dos lameiros e da policultura da encosta entre Salgueirais, Folgosinho e Gouveia e a sua simplificação nas culturas cerealíferas dos Casais de Folgosinho;