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Os Judeus na Beira Interior


A presença de judeus em Portugal é anterior aos reinos visigodos, mas é com a Reconquista que essa presença se torna mais forte, com menções nos forais dos novos territórios de toda a região da Beira Interior. O povoamento fez-se com gentes da mais variada origem, e ao contrário do que sucedeu noutros locais, aos judeus não foi vedada a posse de terra nem de gado, o que contribuiu para o comércio das lãs e peles que durante séculos foram uma das principais riquezas da região.

Nas cidades, desde que existissem 10 homens judeus, constituía-se uma judiaria ou alfama, bairro onde preservavam os seus modos de vida, as relações entre famílias, os seus costumes religiosos e culturais.
Trabalhavam como artesãos e mestres de ofícios, alfaiates, sapateiros, carpinteiros, ferreiros, almocreves e mercadores, a estes se devendo a dinamização das mais importantes feiras da região, algumas das quais ainda hoje se realizam, como a feira de São Bartolomeu em Agosto, na cidade de Trancoso.

Nos finais do século XIV a população das judiarias cresce com a chegada de refugiados de Castela, muitos com recursos financeiros e elevada condição social, que participarão na aventura dos Descobrimentos, com preciosos conhecimentos sobre astronomia, matemática e cartografia, como Mestre João Vizinho, cosmógrafo de D. João II.

As comunidades da Beira Interior sofrem com o Édito de Expulsão dos Judeus (proclamado por D. Manuel I em 1496), as pressões para a conversão forçada e a tentativa de manter as gentes e a sua riqueza, através do subterfúgio de proibir que se inquirisse acerca do passado judaico dos cristãos-novos. A Inquisição vem piorar a condição destes cristãos-novos e pôr fim a séculos de convivência.

Quinhentos anos depois, a presença do povo judaico ainda se sente em Portugal, e não apenas nos muitos vestígios arquitectónicos, culturais, gastronómicos, mas na existência de comunidades cripto-judaicas, que preservaram a religião e os modos de vida, tal como em Belmonte.

Uma visita a estes locais mostra-nos como era diverso o país que agora consideramos homogéneo, e como a identidade religiosa e cultural de um povo se manteve, protegida na intimidade familiar, influenciando toda a região.