Chamamos Patagónia à vasta região que, estendida em forma de ponta triangular entre os dois grandes Oceanos, cobre o extremo do Continente Sul Americano, partindo do limite natural que é o Rio Colorado. Falar da origem da sua denominação é entrar no terreno da fantasia. A etimologia de Patagónia não deve procurar-se na sua geografia natural mas sim na história. Com tal nome se designa o país habitado por uns indígenas que o nosso Magalhães, na sua expedição de 1520 baptizou de Patagones.
A Patagónia Argentina tem uma superfície aproximada de 800 mil km2 sem contar arquipélagos, ilhas e território Antártico Argentino e uma densidade populacional de meio habitante por km2. O seu clima rigoroso torna a vida difícil para qualquer animal e ser humano.
Por estas terras esteve também Darwin, na sua famosa viagem no Beagle ao hemisfério sul e da qual ouvimos falar pelo seu livro A Origem das Espécies. Um santuário natural em que as palavras não chegam para lhe fazer justiça, o fim do mundo convenientemente esquecido (ou não).
Território outrora inóspito, conquistado aos índios à força da ignorância do homem branco – o "winca". Ignorância porque o que perdeu foi infinitamente maior do que o que poderia ter ganho numa troca de saberes. Em vez disso teve lugar um massacre tão cruel como injusto, nessas terras distantes – a famosa "conquista do deserto" – onde milhares de índios foram dizimados. A ideia foi trocar um índio por uma ovelha e levar a lã para Inglaterra deixando as terras em mãos de poderosas famílias, e conseguiram! Isto foi lá para finais de 1800. E agora? Agora essas famílias continuam a ser as donas das terras, os poucos povos que sobreviveram continuam marginalizados, continua-se a especular com a sua vida, com a sua cultura, empurram-nos de um lugar para outro à medida que se encontra petróleo nas terras que habitam ou quando o negócio imobiliário assim o justifica.
Aos poucos vão surgindo focos de pessoas que num dilema de identidade se começam a assumir Tehuelches, ou Mapuches; os que deveriam ser efectivamente os donos e senhores destas terras de guanacos, de veados, de pumas, de condores, de baleias, de glaciares, de ouro (projecto Pascua Lama, Ecoportal), de petróleo, de gás natural... Entende-se porque antes disse «convenientemente esquecido», não? Lamento, mas ao escrever sobre a Patagónia e as suas belezas não posso falar de tudo isso, sem mencionar tudo isto…
«Quem quer comprar um hectare na Patagónia? São só 30.000 dólares...» Mas, a Argentina não é considerada um país do "terceiro mundo", onde tudo é barato? Sim é, mas quando se trata de vender, o preço é em dólares porque se vende aos "gringos"... que aos poucos compram tudo, compram tudo, compram tudo e não deixam nada.... levam o ouro, levam a água, levam a pesca, levam a caça, levam o gás, levam todos os recursos que puderem levar e deixam todo o lixo que puderem deixar... ah, é então isto o terceiro mundo!!! Deixar que o primeiro o explore. Já não vêm com os espelhinhos de cores enganar os índios, agora o mesmo branco vende as suas terras, os seus recursos, e até a sua família... 100 anos e não podemos mudar uma vírgula...
Vivemos numa redoma de vidro, preocupados com a crise, que já dura desde que sou pequenina. Na verdade quando é que não estivemos em crise? Ah claro, ter medo da crise implica... chamar a crise! Tanto se fala nela que ela aparece. Ter medo de viver, ter medo de tudo, porque uma sociedade com medo pode vender a alma ao diabo e é facilmente manipulada. A crise existe, mas não é de agora, e chama-se crise de valores. Veja-se o que aconteceu há 100 anos e veja-se o que continua a acontecer agora.
(cont.)